Ouvi de longe o som do bem-te-vi.
Ouvi também o som da fábrica de papel ao lado
Já eram seis horas da manhã.
O menino do quarto ao lado ressonava sem intervalos.
Pus os ossos de ponta,
Vesti uma roupa,
Lavei o rosto e fui pôr uma roupa na máquina de lavar.
Depois de fazer um café,
me dei conta de que hoje não era um dia inútil.
Nas Segunda-feiras, trabalha-se!
Amo as Letras, a Pedagogia e, recentemente, encantada com o Direito. Perfil ficcional, qualquer semelhança é mera coincidência.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
domingo, 2 de dezembro de 2012
Mulher rasa
Uma pessoa me disse que eu era uma mulher sem ambições. Que pra me contentar bastava um prato de comida, uma cama pra dormir e um tico...
Achei
engraçado na época, quase cheguei a me ofender.
Mas,
depois de um tempo, cheguei à conclusão de que, basicamente, a
plenitude se resume nisso: a satisfação das necessidades
fisiológicas básicas de um ser humano. A criatura, autora do
desaforo, não fazia ideia do quando isso me faz feliz.
Sou
feliz com muito pouco. E agradeço a Deus e aos meus pais, minha
família por não terem me criado uma mulher mesquinha e miserável,
avarenta ou pródiga, por terem me feito ver que a gente deve viver
em paz com as pessoas, mesmo que sejam RASAS e tenham poucas
aspirações a alcançar.
Sobre
quem me disse isso, posso afirmar que não me serviu como tico, nem
como prato ou cama. É um espectro, um vislumbre que se apaga com o
passar dos dias.
Serviu
ao seu propósito no momento certo e saiu de cena para que eu pudesse
fazer o meu espetáculo ter mais vida e música.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Samba em Vinil
De
longe ouviam-se gemidos de "ai...ai...ai..." que rasgavam o
silêncio da madrugada.
Dali
ouviam-se os sussurros de quem paulatinamente ia acordando nos
quartos circunvizinhos.
O
gemido cessava por momentos. Quando se estava quase conciliando o
sono, o concerto de dor reiniciava e os ouvintes sentiam a tensa
angústia aumentar.
O relógio-cuco da parede da sala de estar anunciava mais uma hora que se passava e o solo ainda persistia.
O relógio-cuco da parede da sala de estar anunciava mais uma hora que se passava e o solo ainda persistia.
No
outro dia, quando a aurora de dedos róseos apareceu, os hóspedes da
pensão saíram a procurar a vítima agonizante.
Diziam
que ali, mesmo naquela cidadezinha pacata e distante da capital,
estava chegando o banditismo, os roubos habituais, até sequestro
relâmpago já havia acontecido, que absurdo. Haviam sequestrado a
filha do pastor da Igreja Luterana que havia ganhado do marido um
carro zero. Um desses "carons de trasseiro crande", e ainda
a fizeram sacar tudo que tinha na conta corrente, até empréstimo a
pobre tinha feito pra entregar nas mãos do larápios. Hoje em dia
não se podia nem mais fazer faculdade à noite, afirmavam as
comadres.
Voltando
a concentrar as buscas, foram procurar a vítima que deixara parte do
centro da cidade acordado a noite inteira. Buscaram atrás da Igreja
Luterana, atrás da Igreja Católica, passando pelo acesso à
Vinícola. Nada de achar rastros da agonizante.
Lá
pelas tantas, correu no centro da cidade um vento fresco atenuando a
manhã ensolarada que cada vez mais esquentava.
E...ouviu-se
outra vez: "ai...ai...ai..."
Todos
correram em direção ao gemido.
No
lugar de um corpo, encontraram um vinil quebrado pela metade
acompanhado de cartas de amor endereçadas a um senhora recatada,
exemplo de virtude na cidade, datadas de trinta anos atrás.
Sentaram-se
e descobriram coisas indizíveis da pudica senhora.
Um
pouco mais distante, estava a capa do vinil, com uma dedicatória
escrita com letras cursivas que prometia um amor eterno cheio de
dedicação. Estava lá a promessa de que a levaria em seu coração
para o campo de guerra e, quando ele voltasse, a amaria sem pudor e
diria ao mundo que ela sim, era a mulher da vida dele. Mesmo sendo
uma aluna de escola de freiras.
Não
se sabe até hoje o desfecho daquelas promessas apaixonadas.
A
verdade é que a senhora até aquele moemnto circulava com o título
de “viúva por anos, desde novinha”.
Os
gemidos eram um galho de maricá com um espinho que tocava levemente
uma parte do vinil quando empurrado pelo vento.
O
"ai...ai...ai..." era exatamente o primeiro “ai”
repetido diversas vezes, trecho do Samba em Prelúdio, do Tom Jobim.
Como o galho do maricá não completava o semicírculo do vinil, quem
ouvia de longe achava que era alguém em sofrimento.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Espanador de saudades
Varre a casa, levanta a cama, passa o aspirador...
Num toque de mágica e maestria, rapidamente tudo fica limpo.
Simples assim.
Varre aquela saudade de quem já se foi,
Levanta a tristeza e passa o espanador...
O espanador de saudades.
De tempo em tempo, a saudade volta a se acumular nos mais íntimos lugares
da nossa consciência,
Fazendo flash back,
presentificando aquela
lúgubre tristeza
Jazendo ali na porta da frente da mente,
Um outdoor funesto
Insistindo em ficar presente.
E lá se vai de novo, e de novo, em busca
do espanador de saudades.
Num toque de mágica e maestria, rapidamente tudo fica limpo.
Simples assim.
Varre aquela saudade de quem já se foi,
Levanta a tristeza e passa o espanador...
O espanador de saudades.
De tempo em tempo, a saudade volta a se acumular nos mais íntimos lugares
da nossa consciência,
Fazendo flash back,
presentificando aquela
lúgubre tristeza
Jazendo ali na porta da frente da mente,
Um outdoor funesto
Insistindo em ficar presente.
E lá se vai de novo, e de novo, em busca
do espanador de saudades.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Despedida
Eu o vi de longe. Talvez antes dele. Vestia uma calça de brim
velha e rota, mas limpa. Caminhava se sacudindo e sobre a camiseta do
time pendia um colar tribal. Até hoje eu não sei qual
era o significado. Calçava um tipo de sapato estranho que
parecia contribuir para aquele sacolejo sem suspensão. No
rosto de quem já passara da adolescência, avistavam-se
traços de acne nível três, já
cicatrizados. Nos dedos da mão esquerda, viam-se anéis
largos de prata, inclusive no polegar. Ao sentar-se, cumprimentou-me
sem emoção, sem beijinhos, sem carinho, sem amor. Notei
que daquela mão as unhas estavam mais crescidas do que a da
outra, porém, lixadas e arredondadas, limpas e cuidadas. Sem
saber ao certo o que dizer, olhei para as minhas próprias
unhas e me surpreendi quando constatei que eu deveria ir a manicura.
- Quer café? Perguntei.
- Não se toma café às onze da manhã...Replicou
ele.
- Então, o que quer beber? O que quer pedir?
- Eu sou o homem da dupla, lembra? Quase vociferou.
- Eu peço, eu decido! Concluiu – imaginei-o uma fera,
excretando para demarcar seu território...
- Estás tocando violão? Mudei logo de assunto.
- Perspicaz...Como sempre!
- Tive que inverter as cordas...Não consegui tocar como os
destros...Nisso eu puxei minha tia. Nem pra me pentear eu consigo
usar a mão direita. Isso era verdade!
Riu disso.
Fiquei mais aliviada ao ouvi-lo falar e sorrir, a tensão
inicial tendia a diminuir.
Ele, ali tão perto e longe...
Chamou o garçom e disse-lhe:
- Uma água sem gás pra ela e um suco de acerola pra
mim!
- Com cenoura! Completou. Faz bem pros olhos! Disse rindo novamente
para mim.
Falou aquilo para me intimidar, pensei. Como eu diria a ele o quanto
senti sua falta, o calor do seu corpo me abraçando, o sabor de
receber seu beijo logo de manhã? Se ele estava tão
homem, tão distante, tão independente? Eu queria
abraçá-lo, tocar seu rosto com meus dedos, ouvir seu
“BOM DIA” ao acordar e fazer o café para ele. Recordar.
Reviver tudo outra vez. Mas e as palavras? Onde elas se escondiam?
Só conseguia olhá-lo a sorver com avidez e juventude o
sabor daquele suco mirabolante. Aí se fez um silêncio
gutural e eu irrompi ao perguntar:
- E ela? Como é?
- É maravilhosa! Faz café pra mim, quando saio do banho
ela me espera com a toalha na mão, sorrindo. Precisa ver que
boca linda, que rosto maravilhoso!
Que horror! Pensei eu. Por que eu fui perguntar por ela, por que eu
não disse tudo que eu havia ensaiado para dizer, o que estava
entalado na garganta? De repente eu me senti a mulher mais infeliz do
mundo, a sobra depois que o caminhão de lixo reciclado passa.
E, ao invés de dizer como eu estava me sentindo, eu reconheci
minha própria voz a dizer:
- Tu não achas pouco o tempo que reservaste para passar
comigo?
- Achar eu acho, mas antes duas horas na ponte aérea do que
ficar sem me ver...
- Ah! Disse-me limpando o canto da boca com um guardanapo de papel...
– eu queria te pedir um favor....
- Qual? Eu me interessei de pronto.
- Eu to precisando que tu me mande mais grana por mês, mais
euros, saca? As despesas aumentaram com ela morando lá em
casa.
Eu queria morrer! Essa era a sensação! Depois de um ano
morando no exterior, ele me encontra com hora marcada e ainda me
pedia para financiar a minha solidão e a sua volúpia!
Tinha que levar pra morar junto? Por que não saia, dava uma e
voltava sozinho para dormir em casa? E fazer café da manhã
e levar toalha no banheiro...isso era coisa NOSSA! Só NOSSA!
Como ousara fazer isso comigo?
Como ousara fazer isso com OUTRA?
- Agora tenho que ir...vou fazer o check-in, tu sabe, demora, né...
- Cuide-se, viu? Disse-lhe, engasgada de saudade...
- Claro que eu me cuido! Não sou mais bebê!
- Além da grana, pode continuar mandando e-mails, a gente
adora ler!
- Ah! Deu-me um beijo no rosto, um abraço apertado e disse-me
já caminhando, com a voz bem alta:
- Não chora, eu volto depois que terminar a faculdade e não
esquece que eu te amo muito, muito, muito...e vê se arruma um
padrasto decente pra mim, tá bom?
(1º Lugar na Categoria "Conto" do Prêmio Laury Maciel da FAPA em 2006)
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Perdão
Eu te perdôo, meu bem, pois ainda sinto que tu faz parte de mim.
Sinto que tudo que vivemos ainda é muito especial e latente pra mim.
Se acabou de fato para ti, não sei. Apenas sei que te quero tanto que não consigo te odiar;
Não consigo achar que os teus defeitos sejam tão defeituosos...
Não quero simplesmente ficar aqui fazendo associação livre de ideias pra poder entender o que acabou,
Se realmente tivesse acabado, eu não estaria sentindo um abismo dentro de mim.
E, por mais que eu queira, ainda não consigo parar de pensar em ti o tempo todo,
Como se tu estivesse de plano no fundo do meu notebook.
O que me dói é a incerteza, a falta da verdade, a tua palavra.
Ou a falta dela;
Ou a tua presença;
Ou a tua falta que ainda me faz falta.
Sinto que tudo que vivemos ainda é muito especial e latente pra mim.
Se acabou de fato para ti, não sei. Apenas sei que te quero tanto que não consigo te odiar;
Não consigo achar que os teus defeitos sejam tão defeituosos...
Não quero simplesmente ficar aqui fazendo associação livre de ideias pra poder entender o que acabou,
Se realmente tivesse acabado, eu não estaria sentindo um abismo dentro de mim.
E, por mais que eu queira, ainda não consigo parar de pensar em ti o tempo todo,
Como se tu estivesse de plano no fundo do meu notebook.
O que me dói é a incerteza, a falta da verdade, a tua palavra.
Ou a falta dela;
Ou a tua presença;
Ou a tua falta que ainda me faz falta.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Arrefeceu
Fico
muito feliz quando alguém me diz que achou a pessoa certa, que desta
vez, o "casório sai". Engraçado isso, por que no início
da maioria de todos os relacionamentos, as pessoas só veem o lado
bom das outras. E ainda há quem diga: ela têm defeitos, mas perto
das virtudes eles nem aparecem.
Ledo
engano. Os defeitos aparecem sim. Aparecem da maneira mais cruel e
insensata possível.
Aparecem
quando é um momento de paz e tu vês turbulências.
Quando
tu queres silêncio e há explosões, quando tu quer riso e recebes
insensibilidade.
A
moça tão linda, o homem tão dedicado e atencioso, tornam-se
defeituosos, insensíveis, fracos, tristes e ainda; covardes.
Geralmente,
depois de seis meses de convivência, se tudo isso não aflorou,
fique de olhos bem abertos: será que é realmente tudo tão
perfeitinho e bom, ou alguém está dissimulando a realidade pra te
dar uma falsa impressão de que será tudo às mil maravilhas?
Não
existe perfeição, nem pessoa perfeita.
Isso
é utopia e é prato cheio para terapeutas.
Viver
bem é, acima de tudo, conviver com os defeitos das pessoas, como
disse Fabrício Carpinejar em "Desabafo":
Amor
não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da
mulher no amor. Seus filhos...(in:
http://pt.scribd.com/doc/19916926/FABRICIO-CARPINEJAR
),
quem
ama aceita a pessoa, molda-se a ela, ama todos os seus poréns, suas
dúvidas e suas certezas.
E
ainda olha para o objeto de seu amor com os olhos brilhantes de
admiração.
Felino doméstico
Meu
gato, querido;
Tenho muito carinho por ti,
Embora isso não seja um amor que dê pra casar,
Na
minha realidade imediata,
O
que sinto por ti não sinto por mais ninguém.
Tenho
um anseio misturado de te
Abraçar,
Acariciar,
Coçar
tua barriga.
Faz-me
um frufru na sola do meu pé,
Peça-me
alimento para que eu me sinta
Tua
dona
Mas
não quero dividir-te;
Companheiro,
quero-te ao meu lado
Acalentando-me
e curando minhas feridas
De
solidão.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Ouro dos tolos
Desovaste nosso amor em uma cova rasa qualquer, sem ao menos uma pá de terra para deixá-lo aquecido.
Em vão, chorei torrencialmente pelo milagre da vida de novo em nós.
Amei, sofri, vivi plenamente porque fui sincera, honesta, íntegra, tua.
E agora, quando passas na rua, vejo-te com um sorriso amarelo...talvez de desespero,
talvez de solidão, talvez pela tua devassidão antes tão contida e agora escancarada.
Não és, caríssimo, nem de longe o homem pelo qual eu me apaixonei.
Quiçá és um rascunho mal acabado da pessoa generosa, altruísta e guerreira que eu utopicamente insistia em enxergar.
Acho mesmo que o diamante virou carvão.
Será que ambos nos transformamos no ouro dos tolos?
Pois é, depois de tantas reflexões, vejo que amei um espectro e que tudo de bom que eu via em ti
Diluiu-se diante da tua covardia, da tua crueldade em me mentir sobre o que sentias.
Não tiveste coragem de ser sincero e admitir tuas dificuldade de relacionamento, de entendimento, de convivência. Fraco foste.
Tu és digno de pena. Tão hábil para algumas coisas e tão medíocre para outras.
Foste egoísta.
E agora vejo mais claramente que eu não passei de um love affair de verão.
E agora, transformo isso em poesia.
Sofri.
Amei.
Perdi.
Sobrevivi.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Retorno
Estava esperando o caixa do banco me
atender. O ar-condicionado do ambiente era glacial. Na minha mente,
já via saindo umas asas, bico e pés de pinguim. Ri sozinha da
imagem que me veio a cabeça.
Ele falava aos borbotões com os
clientes, ávido por vender os produtos do banco. Fascinante. Quase
um comerciante judeu com a loja em liquidação.
Estava enfiando os produtos goela
abaixo.
Enquanto eu aguardava pacientemente
como uma monja a minha vez de ser atendida, arrepiava-me do frio. Um
rapaz ao meu lado que me olhava de soslaio desde quando comecei a rir sozinha, estava meio apavorado. Será que era porque eu estava rindo sozinha ou porque estava de calção
e tomara-que-caia?
Observei que até eu ser atendida,
cada um que passava ficava minutos a fio no confessionário em frente
ao camarada bancário. O tom da conversa ia diminuindo a medida em
que a situação do confessante ficava crítica. E o confessor dava a
sentença, quase sempre, neste dia, favorável ao endividamento do
pedinte.
Na minha vez?
Antes de me sentar ele já havia me
dado a resposta que eu pedira.
Simples assim.
Esperei 40 minutos pra ter um de
atenção.
Que tempo caro, o desse homem!
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