sexta-feira, 26 de março de 2010

Vespa vermelha



Estava tão absorta em meus próprios pensamentos.

Ser mãe e mulher traz uma carga no DNA de responsabilidades, deveres e horários para serem cumpridos.

Acho que o relógio biológico de algumas mulheres deve iniciar com alguns minutos adiantados para que possamos dar conta da rotina estressante que nos cerca, e, além disso, ter um tempinho para a gente.

Que ócio caro, este...

Em uma dessas minhas incursões nos compromissos de mãe e mulher, passei com o meu mamífero correndo lomba acima por uma casa em que havia uma Vespa Vermelha. Ele até me chamou: _ Mãe, que moto é aquela dali...e eu, na angústia de não chegar atrasada, nem dei bola para o que meu filho disse.

No descer da lomba, na volta para casa, meu filho novamente me chamou e eu olhei. Em um bairro nobre de Porto Alegre, tal figura destoava das demais motocicletas que transitavam nas ruas. Mas ela, imponente, estava em um lugar de destaque em uma casa que seria brevemente um restaurante.

Não me contive.

Saquei do meu então celular e registrei esta foto que vocês veem acima.

Ela, Vermelha, dignamente recepcionando e ilustrando o frontispício de um estabelecimento comercial, estava assim, de cara lavada, sem mentir sua idade: uma beleza de meio século, garbosa e absolutamente reinando em seu lugar.

Ao contrário do que sempre lutei, quis, naquele momento, ser um objeto, mas não um qualquer: queria ser aquele objeto e senti inveja de um pela primeira vez na vida.

Ela, uma senhora Vespa Vermelha de meio século, estava onde muitas mulheres gostariam de estar: no seu resplendor assumindo a sua meia idade e em um lugar de destaque na sociedade, onde qualquer um que passava poderia testemunhar sua beleza e relembrar os áureos tempos em que ela desfilava entre as ruas citadinas.

Mas isso foi por um momento, pois relembrei desse fato agora, momento em que descarreguei as imagens e as vi, revivendo cada uma delas em minha mente fértil.


Vacância


Usei esta palavra por que hoje me perguntaram o sentido dela e eu expliquei que se tratava da falta de algo, de alguém. Logo me lembrei de que deixei de escrever por dois meses. Estava em vacância comigo mesma.

Geralmente, as pessoas deixam de fazer aquilo que mais gostam em virtude de alguma tristeza que carregam no peito, o que poderia obviamente ser o motivo do meu hiato temporal por não escrever aqui, atividade que considero lúdica, onírica.

pessoas que se sentem entristecidas e escrevem muito. O labor do escritor melhora quando sente a alma partida...boa essa minha definição para Literatura.

Eu não. Eu escrevo quase sempre: quando estou triste; quando estou de bem comigo mesma. Mas escrevo mesmo quando meu ser transborda de sensações a ponto de eu me sentar em frente ao teclado e fazer amor com as Letras, tocando-as de tal maneira que elas se enfileiram a fim de expressar o que penso.

Escrever para mim é pathos, paixão. Não aquela paixão que dá e passa dando lugar para outro rosto, mas a paixão do apaixonar-se, de estar sempre em situação de apaixonamento.

Bom, estou, depois de um tempo de reflexão interna e teorizando os motivos da minha ausência, querendo dizer claramente que agora voltei para ficar.

Fico definitivamente em mim mesma, pois descobri neste momento em que escrevo, a minha imperativa necessidade fisiológica de fazer Literatura, de tecer meus poemas com amargura, paixão ou tristeza, mas de fazer este tecido com a alma.

Anima, do Grego significa ALMA...

Pathos, do Grego...significa PAIXÂO, (pathology, patologia, doença)...

Hoje escrevo para avisar que não haverá mais lacunas no meu diálogo com a Literatura!

Avant la lettre!!!