De
longe ouviam-se gemidos de "ai...ai...ai..." que rasgavam o
silêncio da madrugada.
Dali
ouviam-se os sussurros de quem paulatinamente ia acordando nos
quartos circunvizinhos.
O
gemido cessava por momentos. Quando se estava quase conciliando o
sono, o concerto de dor reiniciava e os ouvintes sentiam a tensa
angústia aumentar.
O relógio-cuco da parede da sala de estar anunciava mais uma hora que se passava e o solo ainda persistia.
O relógio-cuco da parede da sala de estar anunciava mais uma hora que se passava e o solo ainda persistia.
No
outro dia, quando a aurora de dedos róseos apareceu, os hóspedes da
pensão saíram a procurar a vítima agonizante.
Diziam
que ali, mesmo naquela cidadezinha pacata e distante da capital,
estava chegando o banditismo, os roubos habituais, até sequestro
relâmpago já havia acontecido, que absurdo. Haviam sequestrado a
filha do pastor da Igreja Luterana que havia ganhado do marido um
carro zero. Um desses "carons de trasseiro crande", e ainda
a fizeram sacar tudo que tinha na conta corrente, até empréstimo a
pobre tinha feito pra entregar nas mãos do larápios. Hoje em dia
não se podia nem mais fazer faculdade à noite, afirmavam as
comadres.
Voltando
a concentrar as buscas, foram procurar a vítima que deixara parte do
centro da cidade acordado a noite inteira. Buscaram atrás da Igreja
Luterana, atrás da Igreja Católica, passando pelo acesso à
Vinícola. Nada de achar rastros da agonizante.
Lá
pelas tantas, correu no centro da cidade um vento fresco atenuando a
manhã ensolarada que cada vez mais esquentava.
E...ouviu-se
outra vez: "ai...ai...ai..."
Todos
correram em direção ao gemido.
No
lugar de um corpo, encontraram um vinil quebrado pela metade
acompanhado de cartas de amor endereçadas a um senhora recatada,
exemplo de virtude na cidade, datadas de trinta anos atrás.
Sentaram-se
e descobriram coisas indizíveis da pudica senhora.
Um
pouco mais distante, estava a capa do vinil, com uma dedicatória
escrita com letras cursivas que prometia um amor eterno cheio de
dedicação. Estava lá a promessa de que a levaria em seu coração
para o campo de guerra e, quando ele voltasse, a amaria sem pudor e
diria ao mundo que ela sim, era a mulher da vida dele. Mesmo sendo
uma aluna de escola de freiras.
Não
se sabe até hoje o desfecho daquelas promessas apaixonadas.
A
verdade é que a senhora até aquele moemnto circulava com o título
de “viúva por anos, desde novinha”.
Os
gemidos eram um galho de maricá com um espinho que tocava levemente
uma parte do vinil quando empurrado pelo vento.
O
"ai...ai...ai..." era exatamente o primeiro “ai”
repetido diversas vezes, trecho do Samba em Prelúdio, do Tom Jobim.
Como o galho do maricá não completava o semicírculo do vinil, quem
ouvia de longe achava que era alguém em sofrimento.
