terça-feira, 27 de novembro de 2012

Samba em Vinil



De longe ouviam-se gemidos de "ai...ai...ai..." que rasgavam o silêncio da madrugada.
Dali ouviam-se os sussurros de quem paulatinamente ia acordando nos quartos circunvizinhos.
O gemido cessava por momentos. Quando se estava quase conciliando o sono, o concerto de dor reiniciava e os ouvintes sentiam a tensa angústia aumentar.
O relógio-cuco da parede da sala de estar anunciava mais uma hora que se passava e o solo ainda persistia.
No outro dia, quando a aurora de dedos róseos apareceu, os hóspedes da pensão saíram a procurar a vítima agonizante.
Diziam que ali, mesmo naquela cidadezinha pacata e distante da capital, estava chegando o banditismo, os roubos habituais, até sequestro relâmpago já havia acontecido, que absurdo. Haviam sequestrado a filha do pastor da Igreja Luterana que havia ganhado do marido um carro zero. Um desses "carons de trasseiro crande", e ainda a fizeram sacar tudo que tinha na conta corrente, até empréstimo a pobre tinha feito pra entregar nas mãos do larápios. Hoje em dia não se podia nem mais fazer faculdade à noite, afirmavam as comadres.
Voltando a concentrar as buscas, foram procurar a vítima que deixara parte do centro da cidade acordado a noite inteira. Buscaram atrás da Igreja Luterana, atrás da Igreja Católica, passando pelo acesso à Vinícola. Nada de achar rastros da agonizante.
Lá pelas tantas, correu no centro da cidade um vento fresco atenuando a manhã ensolarada que cada vez mais esquentava.
E...ouviu-se outra vez: "ai...ai...ai..."
Todos correram em direção ao gemido.
No lugar de um corpo, encontraram um vinil quebrado pela metade acompanhado de cartas de amor endereçadas a um senhora recatada, exemplo de virtude na cidade, datadas de trinta anos atrás.
Sentaram-se e descobriram coisas indizíveis da pudica senhora.
Um pouco mais distante, estava a capa do vinil, com uma dedicatória escrita com letras cursivas que prometia um amor eterno cheio de dedicação. Estava lá a promessa de que a levaria em seu coração para o campo de guerra e, quando ele voltasse, a amaria sem pudor e diria ao mundo que ela sim, era a mulher da vida dele. Mesmo sendo uma aluna de escola de freiras.
Não se sabe até hoje o desfecho daquelas promessas apaixonadas.
A verdade é que a senhora até aquele moemnto circulava com o título de “viúva por anos, desde novinha”.
Os gemidos eram um galho de maricá com um espinho que tocava levemente uma parte do vinil quando empurrado pelo vento.
O "ai...ai...ai..." era exatamente o primeiro “ai” repetido diversas vezes, trecho do Samba em Prelúdio, do Tom Jobim. Como o galho do maricá não completava o semicírculo do vinil, quem ouvia de longe achava que era alguém em sofrimento.

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