sábado, 14 de abril de 2012

Despedida



Eu o vi de longe. Talvez antes dele. Vestia uma calça de brim velha e rota, mas limpa. Caminhava se sacudindo e sobre a camiseta do time pendia um colar tribal. Até hoje eu não sei qual era o significado. Calçava um tipo de sapato estranho que parecia contribuir para aquele sacolejo sem suspensão. No rosto de quem já passara da adolescência, avistavam-se traços de acne nível três, já cicatrizados. Nos dedos da mão esquerda, viam-se anéis largos de prata, inclusive no polegar. Ao sentar-se, cumprimentou-me sem emoção, sem beijinhos, sem carinho, sem amor. Notei que daquela mão as unhas estavam mais crescidas do que a da outra, porém, lixadas e arredondadas, limpas e cuidadas. Sem saber ao certo o que dizer, olhei para as minhas próprias unhas e me surpreendi quando constatei que eu deveria ir a manicura.
- Quer café? Perguntei.
- Não se toma café às onze da manhã...Replicou ele.
- Então, o que quer beber? O que quer pedir?
- Eu sou o homem da dupla, lembra? Quase vociferou.
- Eu peço, eu decido! Concluiu – imaginei-o uma fera, excretando para demarcar seu território...
- Estás tocando violão? Mudei logo de assunto.
- Perspicaz...Como sempre!
- Tive que inverter as cordas...Não consegui tocar como os destros...Nisso eu puxei minha tia. Nem pra me pentear eu consigo usar a mão direita. Isso era verdade!
Riu disso.
Fiquei mais aliviada ao ouvi-lo falar e sorrir, a tensão inicial tendia a diminuir.
Ele, ali tão perto e longe...
Chamou o garçom e disse-lhe:
- Uma água sem gás pra ela e um suco de acerola pra mim!
- Com cenoura! Completou. Faz bem pros olhos! Disse rindo novamente para mim.
Falou aquilo para me intimidar, pensei. Como eu diria a ele o quanto senti sua falta, o calor do seu corpo me abraçando, o sabor de receber seu beijo logo de manhã? Se ele estava tão homem, tão distante, tão independente? Eu queria abraçá-lo, tocar seu rosto com meus dedos, ouvir seu “BOM DIA” ao acordar e fazer o café para ele. Recordar. Reviver tudo outra vez. Mas e as palavras? Onde elas se escondiam?
Só conseguia olhá-lo a sorver com avidez e juventude o sabor daquele suco mirabolante. Aí se fez um silêncio gutural e eu irrompi ao perguntar:
- E ela? Como é?
- É maravilhosa! Faz café pra mim, quando saio do banho ela me espera com a toalha na mão, sorrindo. Precisa ver que boca linda, que rosto maravilhoso!
Que horror! Pensei eu. Por que eu fui perguntar por ela, por que eu não disse tudo que eu havia ensaiado para dizer, o que estava entalado na garganta? De repente eu me senti a mulher mais infeliz do mundo, a sobra depois que o caminhão de lixo reciclado passa. E, ao invés de dizer como eu estava me sentindo, eu reconheci minha própria voz a dizer:
- Tu não achas pouco o tempo que reservaste para passar comigo?
- Achar eu acho, mas antes duas horas na ponte aérea do que ficar sem me ver...
- Ah! Disse-me limpando o canto da boca com um guardanapo de papel... – eu queria te pedir um favor....
- Qual? Eu me interessei de pronto.
- Eu to precisando que tu me mande mais grana por mês, mais euros, saca? As despesas aumentaram com ela morando lá em casa.
Eu queria morrer! Essa era a sensação! Depois de um ano morando no exterior, ele me encontra com hora marcada e ainda me pedia para financiar a minha solidão e a sua volúpia! Tinha que levar pra morar junto? Por que não saia, dava uma e voltava sozinho para dormir em casa? E fazer café da manhã e levar toalha no banheiro...isso era coisa NOSSA! Só NOSSA! Como ousara fazer isso comigo?
Como ousara fazer isso com OUTRA?
- Agora tenho que ir...vou fazer o check-in, tu sabe, demora, né...
- Cuide-se, viu? Disse-lhe, engasgada de saudade...
- Claro que eu me cuido! Não sou mais bebê!
- Além da grana, pode continuar mandando e-mails, a gente adora ler!
- Ah! Deu-me um beijo no rosto, um abraço apertado e disse-me já caminhando, com a voz bem alta:
- Não chora, eu volto depois que terminar a faculdade e não esquece que eu te amo muito, muito, muito...e vê se arruma um padrasto decente pra mim, tá bom?


(1º Lugar na Categoria "Conto" do Prêmio Laury Maciel da FAPA em 2006)

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