quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Deputada Garrafinha


Magra e de saltos altos, siliconada, dentes perfeitos, olhos azuis, cabelos ruivos com luzes loiro californiano. A bela moça me deu oi e eu fiquei sem jeito porque não sabia quem era ela. Fui tua colega, lembra? falou sorrindo...fizemos protestos em frente ao Piratini de barraquinha, chimarrão e tudo o mais.
Bom, a garrafinha que eu conhecia, apelido da faculdade, era uma moça sorridente de estatura mediana, cabelos super crespos e pele branca, usava um aparelho nos dentes, que ficavam quase todos para fora da boca, para corrigir um acavalamento dos incisivos centrais e laterais que estavam praticamente tomando o lugar dos caninos superiores. Quem a olhava de frente, via somente os quatro incisivos da arcada superior bordados de ferragem, na época, havia pouco glamour nisso. Usava uns óculos fundos de garrafas, justificativa do apelido, que diminuía em quase oitenta por cento os olhos dela. Os cílios tipo Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, davam, aos mínimos olhos, um olhar esbugalhado por baixo das lentes grossas. Era professora desde os 17 anos, quando se formou em Magistério. Entrou na faculdade com dezessete e meio e aos dezoito era a nota dez da turma. Cheia de opiniões, falava sorrindo sem ter vergonha da sua bocona, dos seus olhos mínimos e da figura de quadrinhos que parecia. Fazia questão de dizer que era a Garrafinha do Gibi e andava e vestia-se como tal. Sabia da psicologia do desenvolvimento como nenhum de nós, era toda natureba, mas não resistia a um xis salada.
Depois de todos esses flash backs, realmente, não poderia ser a mesma pessoa. Eu disse: Como tu tá..bonita!!! E rindo, e daí, ficou milionária?
E ela me contou. Era contratada do Estado e fora fazer um ato de protesto por melhores salários naquele dia em frente ao Piratini. Chimarrão pra cá, cuia pra lá, acabara a água e ela adentrou à Assembléia Legislativa para encher novamente a garrafa térmica e deu de cara com um deputado no saguão. Segundo ela, foi amor ao primeiro olhar. Ele todo tímido, do interior, ela transbordando energia e vitalidade no exterior, grudaram-se e de lá para cá, foi só amor.
Mas o que anda fazendo, perguntei para desviar o assunto do lado pessoal, e ela me disse: muita drenagem linfática, ginástica, acupuntura, tudo pra ficar linda pra ele. Meu namorado é um sujeito ocupado, disse rindo. E a pós-graduação que tu querias fazer? Perguntei? Ah,...pós, hehehehe. Quem precisa de pós com um homem desses? O assunto dela era só o cara.
Daí, me esquentei da cara e perguntei: Tu tá trabalhando onde, guria?
_Pois é – disse-me ela - depois de encontrá-lo no saguão da AL, números de telefones trocados e daí uma dificuldade para conseguir uma brecha na agenda dos dois. O Estado pagava pouco mesmo e ela pediu demissão para ter mais tempo pra ele, que aparecia umas três horas por semana no apartamento que ele alugara pra ela. Como era magra, ele sugeriu um silicone nos seios dela e ela topou. Se achou estranha no início, mas ele gostava e dizia que ela tinha ficado um mulherão, então ela se acostumou.
Devidamente patrocinada e incentivada pelo deputado - se bem que os favores eram tantos que dele mesmo não havia saído um centavo - trocou os óculos por lentes de contatos azuis, para ficar com o olhar mais leve, terminou o tratamento dentário, fez clareamento, pôs facetas de porcelana para combinar com a pele também, segundo ele, de porcelana e o olhar de boneca.
Nos dias agendados para vê-lo, mais ou menos um ou dois por semana, ela fazia a janta para ele já que “coitadinho, comia fora todos os dias umas comidas caras que são verdadeiras porcarias, então pedia para ela fazer um comidinha caseira”e, com isso, por causa dos compromissos, geralmente ele se atrasava.
Nestes dias, ela se arrumava cedo e como não queria ficar ligando, afinal de contas ele tinha coisas importantes pra resolver, acalmava-se dando umas tragadas no cigarro que ele deixava ao lado da cama, claro, para não comer e sujar os dentes antes dele chegar. E quando viu estava viciada em tabaco. Passou a fumar sempre que estava ansiosa, esperando notícias dele, quase todos os dias, mendigando amor e afeição.
Depois de todas aquelas informações, em pleno saguão da faculdade que eu havia retornado para pegar um documento, parecia que estávamos em plena sessão de psicoterapia. Fiquei com pena daquela moça bonita que estava com o coração destroçado na mão.
Daí eu perguntei: - E tu tá feliz assim?
Ela me respondeu, cruzando as pernas e tirando nervosamente um cigarro da bolsa VH, enchendo os olhos de lágrimas:
- Ele não estava separado nada, nem tinha que ir pro interior ver os eleitores. Ele morava duas quadras do apartamento que alugava pra mim, com a família dele, mulher, filhos, cachorros e um título do Clube Fino. Não saía comigo pra jantar fora para ninguém me ver com ele e para a mulher não notar as despesas, já que tinham conta conjunta no banco. Fiquei triste com a descoberta, mas fazer o quê? Eu não dava gastos, não exigia nada e ainda estava apaixonada, confidenciou ela.
- Num dia desses, continuou, ele entrou em casa em um horário em que não havia combinado, me pegou de shortinho fazendo os pés na área de serviço, sem lentes de contato, com os meus óculos garrafinha e com uma touca de hidratação nos cabelos e quando me viu, fez cara de espanto, como se eu fosse uma coisa horrível. Estava muito bravo, perguntei por que ele não me avisara da visita, pois eu poderia me arrumar pra ele. “Tu é fútil,” disse ele, “sem produção tu é feia!” .
- Isso acabou comigo. Falou que estava arrependido e estava pensando em dar outro rumo pra vida dele. Perguntei o que eu havia feito pra merecer tanto desprezo e ele confessou: a mulher descobrira o caso.
- Agora ele me deixou com todas as contas pra pagar, água, energia, drenagem linfática e agora a terapia, me deu um mês pra eu sair da vida dele e disse que eu sou uma inútil. Poxa vida, larguei tudo por ele, para fazê-lo feliz e agora isso?
- Agora estou aqui, tentando uma bolsa para fazer pós-graduação e largando currículo em todos os lugares que eu passo, mas as pessoas me olham e dizem que o salário não será suficiente para pagar minhas despesas, acham-me cara. Que eu vou fazer?
Diante de uma mulher com o coração e a vida destroçados que queria recomeçar, não tive outra dúvida, falei pra ela:
- Desça do salto, ponha os óculos, veja a vida por ti mesma e seja tu de verdade.
Nos abraçamos e fui embora.
Tempo depois, recebi um e-mail com uma foto dela. De All Star, calça de brim desfiada, camiseta fechada até o pescoço, cabelos novamente crespos e um sorriso de orelha a orelha. Estava trabalhando em uma empresa de publicidade, começara como auxiliar do editor e agora estava fazendo um curso de informática aplicada à área de publicidade. Apareceu uma empresa cliente com a necessidade de se criar um slogam...Zapt! Ela deu uma idéia, o patrão apostou nela e a deixou responsável pela criação. Foi sucesso imediato. Dizia-me ela, estava feliz, mudara de candidato a deputado e deputada não entendia mais nada.

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