terça-feira, 11 de maio de 2010

Saudades dos meus oito anos

Eu acho que a faculdade humana do pensamento é magnífica. Sei quepessoas que também acreditam que animais, plantas e outros seres não humanos também têm um tipo de raciocínio senão melhor, pelo menos igual ao nosso, com a diferença de que nós somos falantes, e eles não. Não duvido definitivamente de nada. Sou uma mulher crente, acredito e tenho em anjos, fadas, gnomos, papai noel, deuses em geral e na integridade humana.

Hoje então, usando o pensamento, percebi o quanto estou distante da aurora da minha vida, dos meus oito anos, do tempo em que tudo era tão fácil, simples.

Lembro-me de que as compras apareciam em casa, contas pagavam-se nos bancos, havia tudo pronto na mesa e sabíamos apenas de algumas dificuldades que, por acaso, nos chegavam ao conhecimento. Claro, havia a preocupação dos pais em não deixarem os filhos cometerem excessos, deveriam dividir as coisas, leia-se roupas, sapatos, quichutes, congas e brinquedos, com os demais irmãos, o que quase sempre era uma chusma. Mas a gente ir para o lápis somar e ver quanto entrara e quanto devíamos? Não, realmente não me lembro disso.

Água geladinha para beber? Era a do poço, a outra, a da companhia, somente para banho e outras tarefas domésticas. A bergamota, o limão, a lima, a goiaba, pêra e outras frutas, a gente comia no , sem lavar, assim subidos, agarrados nos galhos que nem bicho preguiça. Ninguém reclamava de obesidade, insônia, depressão infantil, transtorno do déficit de atenção ou outras patologias tão conhecidas das mães, professoras, psicólogos e psicopedagogos hoje em dia. Televisão? Era um assunto proibido em casa: isso distrai a mente das pessoas, dizia meu pai, dogmático que era, cumprindo sua doutrina evangélico-cristã.

Depois deste flach back, vejo na minha frente um menino, também de oito anos, que pede para ver o Pica-pau na tevê e me suborna comoventemente com um cartão-presente do dia das mães feito por ele e auxiliado pela educadora. Não quer brincar no pátio nem subir nas árvores, pois desconhece completamente o significado disso. Antes de aprender a falar direito, ele sabia os signos da rede americana de fast food e apontava com o gordo indicadorzinho balbuciando ham ham; batia palmas para o signo do hipermercado com propaganda na tv e para a inserção das lojas de móveis e eletrodomésticos, aquela que tinha um garoto-propaganda que gritava sorridentemente as promoções do dia como se fossem a última viagem para a consumolândia.

Outros tempos. Meu filho não quer as mesmas coisas que eu queria na mesma idade, tenho que respeitá-lo. Ele é minha mola propulsora que me remete à vida cada vez que eu me acordo me perguntando o porquê de acordar todas as manhãs.

Agora não tenho mais oito anos, uso o pensamento racionalmente e tenho um ser que depende de mim, apesar de diferente de mim, com desejos e expectativas que não sei e talvez nem venha saber quais são.

Sou eu quem deve fazer as mágicas agora: pôr as compras em casa, guarda-las na geladeira, preparar a janta e pagar a conta.

Que saudade de ser criança, mas como é bom ver que vale a pena ser mãe e ter uma criança para amar!

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