segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

sem título

Os cabelos compridos e sujos estavam colados à cabeça molhados de suor e de oleosidade.
A pele meio amarelada dava um aspecto de sujeira, de sombra, que contribuía para que o olhar ficasse desesperançoso e sem vida.
O corpo magro trajado de andrajos rotos estava em sintonia com o cheiro que dele emanava. Borrasca de cigarro. Às vezes de palha, às vezes doado por algum transeunte apiedado e solidário. Os dedos amarelecidos do tabaco davam um destaque ao nó dos dedos magros pela fome da rua.
O calor daquele dia era de quarenta graus na sombra.
Sede. Muita sede. Sede de água fria, gelada, sede de vida.
Chegou no restaurante e pediu um copo de água. Não foi ouvido.
O atendente continuou a esfregar as mesas com álcool gel como se não houvesse ninguém ali.
De novo ele pediu:
- Moço, tu me dá um copo de água, por favor?

Uma senhora que fazia um lanche, deu um olhar de soslaio para o atendente que saiu contrariado pra dar-lhe água. Deu da torneira. Quente, quase fervendo. Os canos ficavam do lado de fora e os primeiros litros de água que saíam estavam quentes do sol escaldante.

Não teve pena do andarilho. Que se rale, quem mandou não estudar, pensou vingativo.

Depois de beber a água quente, que, além de não refrescar, desceu rasgando a glote, o andarilho disse:

- Sabe moço, uma vez eu participei de um grupo de pesquisa que media a felicidade humana. Sou antropólogo, tu sabe o que é isso?
O atendente fez um esboço de admiração, depois voltou para seus afazeres de ouvido em riste.

- Eu era antropólogo...corrigiu o mendigo. Me deixei levar pelas coisas práticas da vida e me sobrou somente a rua. Eu também era um esnobe. Eu também não tinha paciência com as pessoas. Eu era prático.
- Na rua eu tinha liberdade. Em casa, não. Na rua eu era admirado pelos meus títulos, em casa não. Na rua eu era cumprimentado com entusiasmo. Em meio à pesquisa, envolvi-me com temas mais complexos e comecei a racionalizar sobre eles. Me perdi nos meus conceitos. Daí perdi o emprego. Depois, a mulher e os filhos. E só me sobrou a rua. E agora, tu me dás um copo de água quente pra eu beber por que não me queres aqui, para que eu vá embora por que eu exponho o que pode ser o futuro de muitos homens: a sarjeta. Sou uma chaga da sociedade. O que você sabe sobre miséria humana pra me julgar e me querer longe do teu comércio?

O atendente se virou e disse pra ele:

- Eu era menino de rua. E só tinha a rua. Estudei e hoje tenho esse emprego que me sustenta. Se eu consegui, tu consegues sobreviver. A diferença entre nós dois é que tu conheceste a riqueza e o conhecimento e agora está na sarjeta. Um vim dela. Talvez eu não me torne tão rico e culto quanto tu foste, mas certamente não vou me deixar abater a ponto de morar na rua e não mudar essa situação. Ficar de braços cruzados e deixar a vida acontecer não é viver.


- Da próxima vez, continuou o atendente, quando eu te vir menos abandonado, te dou um copo d'água gelado.

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